O nosso diário da JMJ 2023

A Jornada Mundial da Juventude 2023, em Lisboa, foi uma experiência inesquecível – pela sua dimensão, pela sua proximidade, mas também, durante muito tempo, pela ansiedade quanto à sua realização incerta devido à pandemia Covid que chegou a obrigar ao seu adiamento.

No Couto do Mosteiro, começámos a sua preparação já em 2019, com o projeto de Catequese Say Yes, envolvendo quase duas dezenas de jovens. Assim, foi com alegria que chegámos a 2023, reunindo um grupo de jovens do concelho de Santa Comba Dão que efetivamente se decidiram rumar a Lisboa: um grupo de 11, tendo por âncora o Saleiro, participou na JMJ durante toda a semana de 31 de julho a 07 de agosto, e um segundo grupo de 12, tendo por base os Jotas, que participou na Vigília com o Papa Francisco.

A Pré-jornada: os dias em Santa Comba Dão

Mas, na verdade, a JMJ2023 começou já em Santa Comba Dão, com o acolhimento de 20 jovens vindos de Espanha. Entre os dias 26 a 31 de julho, este grupo originário da Diocese de Vitória, foi acolhido por 3 famílias do Couto do Mosteiro e pelo Agrupamento de Escuteiros de Santa Comba Dão. Ao longo destes dias, tiveram a oportunidade de conhecer um pouco de Santa Comba Dão, em particular a Rota dos Miradouros, o novíssimo Núcleo Museológico de Artes e Ofícios (NMAO) e a Ecopista; participaram em atividades solidárias, em conjunto com os jovens do núcleo Pais em Rede; aprenderam a improvisar ritmos de percussão com o Diogo Antunes e a Filarmónica de Santa Comba Dão e deram mais cor à festa “Há noite no museu” que aconteceu no dia 29 no NMAO.

Pelo meio, tivemos ainda a honra de receber D. Juan Carlos Elizalde, Bispo de Vitória, que fez questão de celebrar duas Eucaristias na nossa comunidade e de participar na Oração com Cânticos de Taizé dinamizada na Igreja do Couto do Mosteiro – iniciativa que acabou por contar também com a presença inesperada do nosso Bispo, D. António Luciano.

Estes primeiros dias revelaram-se tempo fértil para criar relações de amizade entre os nossos jovens e estes “espanhóis” que, afinal, revelaram ser representantes de vários países para além de Espanha: Brasil, Colômbia, Equador, Venezuela, República Dominicana e também descendentes da Argentina e de Portugal.

Pelo meio desta semana, o grupo ainda participou num arraial popular no Sátão e na Cerimónia de Envio organizada em Viseu. Em jeito de despedida, os Escuteiros brindaram todos – incluindo famílias de acolhimento – com um belo Cozido à Portuguesa, servido no domingo após a Missa Dominical celebrada no Couto do Mosteiro.

  • JMJ em Santa Comba Dão, com D. António Luciano e D. Juan Carlos Elizalde
  • JMJ em Santa Comba Dão, com D. António Luciano e D. Juan Carlos Elizalde
  • JMJ em Santa Comba Dão
  • JMJ em Santa Comba Dão

Lisboa

No dia 31 partiram eles e nós para Lisboa e, apesar de ficarmos em locais distintos (eles em Cascais, nós no Monte da Caparica), os nossos caminhos cruzaram-se várias vezes, proporcionando reencontros emocionados pelas ruas da capital.

O acolhimento aconteceu da melhor maneira no Monte da Caparica, com uma Missa muito participada e animada e uma bela feijoada oferecida pela comunidade local aos milhares de jovens peregrinos que ali ficaram alojados.

Nós ficámos na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Lisboa que, ao longo da semana, nos serviu de casa, sob orientação de uma equipa de voluntários comandada pelo André.

Constatando que boa parte do grupo não conhecia Lisboa, desenhámos um programa articulado entre as iniciativas da JMJ e a descoberta da capital.

Dia 01: ver Lisboa a partir de um barco é absolutamente obrigatório para perceber a morfologia da cidade. Tivemos esse privilégio todos dos dias e todas as noites, quase sempre na companhia de outras centenas de peregrinos que animaram as viagens com cânticos nem sempre muito católicos.

No primeiro dia fizemos o aquecimento necessário para o resto da semana: visitámos o Mercado da Ribeira, no Cais do Sodré, a Praça do Comércio e a Rua Augusta; subimos ao Chiado, onde cumprimentámos Pessoa e espreitámos a Brasileira; visitámos a livraria Bertrand – a livraria mais antiga do mundo (desde 1732) – e sentimos o respirar dos nossos poetas, escritores, intelectuais e políticos dos últimos 3 séculos; almoçámos Mc… mas sentados sob os arcos do Teatro Nacional de São Carlos. Descemos o Chiado e subimos até à Sé de Lisboa, aproveitando para espreitar o seu Tesouro e a vista sobre o Tejo. Já impressionados, continuámos a subir até ao Castelo de São Jorge, onde o grupo dormiu a sua primeira merecida sesta à sombra de um pinheiro manso, depois de apreciar a vista sobre a Baixa e o Tejo, Almada e o Cristo Rei. Descemos a Costa do Castelo, passando pelos becos e ruelas pontuadas pelo comércio tradicional e multicultural até ao Martim Moniz, onde os jovens participaram numa iniciativa dialética e multimédia sobre Deus. Avançámos pela Praça da Figueira, pelo Rossio, pelos Restauradores e subindo a Avenida da Liberdade, chegámos ao Parque Eduardo VII onde assistimos – mas não conseguimos ver – a Missa de Acolhimento presidida por D. Manuel Clemente… isto depois de um primeiro aperto de multidões junto aos portões de acesso ao espaço reservado e revistas pela PSP.

Dia 02: começámos o dia no Parque da Paz, em Almada, participando na primeira Catequese proposta, subordinada ao tema da Ecologia Integral. A vacuidade das frases atiradas para as centenas de jovens que se acomodavam no extenso relvado do parque, levou o nosso responsável a intervir, apelando a mais ação e menos conversa, a um pensamento que até pode ser de âmbito global, mas exigindo uma ação local e individual concreta. Os aplausos não inspiraram grande fé na mudança de comportamento que a situação ambiental exige.

De tarde, rumámos para Belém. No comboio, conhecemos o verdadeiro calor humano e os primeiros sinais de ansiedade gerada pelas multidões que nos esperariam nos dias seguintes. E foi em Belém que o nosso grupo teve o primeiro “encontro imediato” com o Papa Francisco. Claro que foi apenas uma breve passagem de carro, um vislumbre de segundos do Santo Padre, mas há quem jure que o Papa olhou e sorriu especialmente para nós, reagindo aos gritos de emoção que algumas das nossas bocas não contiveram. O dia estava ganho, pelo que se seguiu o merecido descanso e, para alguns, um mergulho na fonte luminosa da Praça do Império, mesmo aos olhos do Mosteiro dos Jerónimos (que alguns tiveram de ir tocar para ter a certeza que estavam a viver aquele momento), do CCB e do Padrão dos Descobrimentos. Um salto ao CCB revelou o belo jardim das Oliveiras, e proporcionou a oportunidade (rejeitada) de um jantar saudável – baseado numa Sopa de Cebola e uma Lasanha Vegetariana, com legumes fornecidos pela Associação Semear – mas a juventude preferiu os hambúrgueres ao lado. Para compensar, caminhámos uns bons quilómetros ao longo da Rua Junqueira, passando pelo Palácio de Belém, provando os gelados Santini, parando numa das belíssimas fontes públicas outrora alimentadas pelo Aqueduto das Águas Livres, lamentando o abandono visível do Palácio Burnay e ansiando por um transporte vazio que teimou em não aparecer. Já exaustos avançámos até Alcântara onde apanhámos um dos últimos comboios, que nos levou ao último barco do dia, que nos deixou no penúltimo metro da noite até à FCT.

Dia 03: Procurando as pérolas de Lisboa e fugindo das multidões, rumámos em direção ao Museu Nacional do Azulejo, situado no antigo Convento de Madre Deus, em Xabregas, cuja Igreja constitui um dos ex-libris do espaço. Sendo o Azulejo um dos artefactos mais típicos de Portugal, encontrámos não só a explicação sobre a sua feitura e evolução ao longo dos séculos, mas também exemplos de como o azulejo testemunha a história do nosso país e, em particular, de Lisboa (e de Lisboa pré-1755). O deslumbramento geral não foi diminuído pelo facto de termos pisado o túmulo de D. Leonor (também conhecida como D. Leonor de Viseu, et.al), esposa do nosso rei D. João II (o Príncipe Perfeito). De tarde, seguimos para o Parque Eduardo VII onde participámos na primeira cerimónia pública presidida pelo Papa Francisco. E, de novo, tivemos a bênção de ver Sua Santidade a poucos metros de nós, no meio de uma alegria contagiante de uma Igreja de Todos e para TODOS. A emoção do (já) reencontro com o Papa Francisco culminou no reencontro com o grupo de jovens de Vitória que, em festa, connosco desceram a Avenida de Liberdade no regresso a casa.

Dia 04: Com várias opções à escolha, mas com as almas e os corpinhos a dar os primeiros sinais de fadiga – incompreensível face à energia extra fornecida pelos banhos de água fria disponibilizados sob o céu da FCT e acompanhados pelo secador natural e grátis assegurado pela forte brisa da Caparica – escolhemos o Palácio Nacional da Ajuda e o Tesouro Real como objeto de interesse para a manhã deste belo dia. O Tesouro Real, envolto em medidas de segurança mais apertadas do que as que foram dedicadas ao Papa, é algo indescritível. Só vendo para crer. Depois de apreciar dezenas de milhares de pedras preciosas de todos os tamanhos, cores e feitios, kg de ouro e de prata, tudo transformado em belíssimas peças de arte, utensílios domésticos ou religiosos (curiosidades menores: os pratos de prata riscados pelo uso – a que um bife mais teso obrigou – ou as malas que serviram para transportar boa parte das peças para o Brasil, aquando da fuga de D. João VI perante a invasão francesa)… fomos ainda visitar o Palácio da Ajuda propriamente dito, com destaque talvez para a sala do trono ou a sala de jantar – onde ainda hoje são servidos os Banquetes durante as visitas de Chefes de Estado estrangeiros. No final, sai-se de uma coisa destas emocionalmente esmagado, simultaneamente pela beleza e pela opulência das peças expostas. Talvez devido a este peso sentimental – e pela ausência de capacidade de transporte – acabámos por dormir a sesta no Jardim Afonso Albuquerque, mesmo à frente do Palácio de Belém. Já algo melancólicos pela perspetiva de perdermos a Via Sacra, o final da tarde ganhou novo alento quando chegámos à casa dos Pastéis de Belém que, para nosso espanto, estava vazia – o que nos permitiu degustar este must lisboeta. E eis então que também surge um autocarro da Carris, razoavelmente vazio, que nos transportou até à Baixa, ainda a tempo de assistirmos à última meia hora da Via Sacra. Plantados nos Restauradores, aguardámos a descida das hordas e o final do dia foi coroado com múltiplos encontros de amigos (incluindo novamente os jovens de Vitória) e familiares diversos. Descemos em glória e em festa até à Praça do Comércio, onde participámos em mais um concerto dito católico.

Dias 05 e 06: Chegado o fim de semana maior da JMJ, o momento da Vigília no Campo da Graça, preparámo-nos para o acampamento que todos esperavam e alguns temiam. A chegada ficou marcada não pela caminhada – que, no nosso caso, foi relativamente curta e rápida – mas pelas 2 horas que passámos enfiados na estação de Metro “Alameda”, parados juntamente com milhares e milhares de outros peregrinos, a aguardar um metro capaz de transportar pelo menos alguns de nós até ao “Oriente”. Foi um momento de angústia e de ansiedade, de paciência e de medos, mas também de oportunidade para treinar a respiração… e de apreciar novamente o muito calor humano.

A entrada no Campo da Graça, pelas 14h00, foi mais fácil do que o esperado, tal como o nosso acampamento na zona que previamente nos tinha sido atribuída. Rapidamente os quadrantes do campo começaram a encher-se e os poucos palmos de espaço vazio deixados entre os colchões e sacos-cama começaram a ser preenchidos por novos colchões e sacos-cama de peregrinos recém-chegados, oriundos de todos os cantos do mundo. Na pequena área ocupada pelo nosso grupo começaram a surgir jovens da Austrália, do Vietname, da Suécia, de Barbados, e sabe-se lá de onde. Também os corredores de circulação começaram a ser ocupados por peregrinos que estendiam os seus colhões e descansavam ao sol, pois sombras não havia.

Mais para o final da tarde desse primeiro dia, chegaram os símbolos da JMJ de barco (incluindo uma réplica de uma Nau), Tejo acima, num belo momento que explorou não só a proximidade do rio, como as tradições náuticas portuguesas. Depois foi a vez de chegar o Papa Francisco, marcando o primeiro grande momento de euforia desta Vigília. A noite foi marcada pelo breve mas incisivo discurso do Papa, pela música sinfónica e coral, pelo espetáculo de luz com recurso a uma miríade de drones… Mas sobretudo pela exposição e adoração do Santíssimo e pelo silêncio, quase absoluto, que mais de um milhão de jovens conseguiu manter durante longos minutos deste momento solene e tão íntimo.

A noite da vigília foi mal dormida, mas bem vivida. Quem foi acordando e circulando, pôde vislumbrar a multidão de jovens em torno do altar, num quadro humano desenhado com todas as cores. E assim, amanheceu.

O toque de despertar foi uma surpresa dinamizada pelo Padre Guilherme (DJ). Já todos devem ter visto o principal do seu show de música dessa manhã. O que apenas poucos viram foi, para além do nascer do Sol, o momento quase instantâneo em que centenas de milhares, de um momento para o outro, ativaram os seus abdominais passando da posição deitada para a posição sentada, acordados inesperadamente pelos primeiros toques techno que o sistema de som deitou cá para fora pelas 07h00 da manhã. Meia hora depois, já todos estavam acordados e bem dispostos, prontos para receber o Papa Francisco uma última vez no Campo da Graça e para celebrar a Eucaristia dominical.

Reforçados e sem medos, despedimo-nos do nosso Papa e, depois de uma hora de espera, partimos… caminhando uns 500 m. Os 40 graus que, tal como na véspera, já se faziam sentir antes da hora de almoço e as centenas de milhares que se dirigiam pelos mesmos caminhos de saída, fizeram-nos parar num belo relvado, com uma sombra reconfortante, onde passámos 5 horas a descansar, a comer, e a conversar – quiçá a orar – com vista ainda para a ponte Vasco da Gama. Partimos efetivamente apenas pelas 17h00 em direção ao “Oriente”. Ainda nos refrescámos num vulcão de água, da época da EXPO 98, e jantámos uma das poucas refeições a sério desta semana, no Restaurante italiano Ginos, um “Rigatoni al forno”. A reta final para chegar à FCT foi ainda marcada por uma típica viagem de autocarro, percorrendo os bairros mais típicos de Almada e do Monte da Caparica, com oportunidade para experimentar o perfume de algumas substâncias psicotrópicas.

Dia 07. Para muitos peregrinos, a viagem termina no destino da peregrinação. Para nós, a viagem de regresso fez parte da peregrinação. Ainda na FCT, aproveitámos o tempo disponível para colocarmos em prática dois temas centrais das catequeses da JMJ (a Ecologia Integral e a Amizade Social). E depois de termos almoçado uma última vez fast food em Lisboa, iniciámos alegremente a viagem de regresso, aproveitando para destilar as últimas águas dos SMAS de Almada e para apreciar o facto de termos chegado à nossa bendita terra, quando outros ficaram pelo caminho. Pelo meio da viagem, uma família caridosa da Cancela ainda nos cedeu a sua arca congeladora com gelo – facto que aqui recordamos e agradecemos. Com diversas paragens técnicas, programadas e não programadas, chegámos sãos e salvos a Santa Comba Dão, com o corpo cansado, mas com a mente cheia de memórias e emoções – que levarão algum tempo a processar.

Foi apenas isto? Não. Foi muito, muito, mas muito mais.

Para o futuro, ficam as mensagens que o Papa nos deu, recordando a essência da Boa Nova de Jesus Cristo, mas também as amizades que se fizeram ou reforçaram entre nós e com tantos outros jovens que fomos conhecendo ao longo desta Jornada Mundial da Juventude. Porque o futuro é dos jovens. Sempre foi e sempre será.   

#JMJ2023 Lisboa

#JMJ2027 Seoul

NOTA FINAL: Agradecemos todo o apoio logístico concedido a esta experiência em Santa Comba Dão e à viagem a Lisboa:

+ CM de Santa Comba Dão

+ União de Freguesias de Couto de Mosteiro e Santa Comba Dão

+ APDEF

+ Centro Social Paroquial do Couto do Mosteiro

+ Centro Social Paroquial de São João de Areias

+ Equipa de funcionárias do Centro Escolar do Centro

+ Paróquia do Couto do Mosteiro

+ Famílias de Acolhimento e Agrupamento de Escuteiros de Santa Comba Dão