Finalmente o “chefe choninhas” foi a Taizé

Depois de quase uma década a dinamizar Orações com cânticos de Taizé (a primeira oração dinamizada pelo Saleiro foi em agosto de 2015), o nosso “chefe choninhas” lá se decidiu ir ver a coisa in loco.

Uma pequena delegação do Saleiro viajou até Taizé, parando aqui e acolá na ida e no regresso, perfazendo mais de 3400 km de caminho (Santa Comba Dão – Lourdes – TAIZÉ – Cluny – Avignon – Nimes – Montpellier – Carcassonne – Vitória Gasteiz – Salamanca – Ciudad Rodrigo – Santa Comba Dão).

O Santuário de Lourdes constituiu a nossa primeira paragem a caminho de Taizé. Entre um rio de águas cristalinas e a gruta das aparições, repetimos alguns dos passos da Santa Bernardete. O enquadramento da natureza circundante confere ao local uma tranquilidade que convida à exploração das diferentes capelas e igrejas que acolhem os peregrinos de todo o mundo.

O segundo dia da nossa jornada levou-nos ao nosso destino principal: Taizé, onde passamos uma semana inteira, participando nas diversas atividades que marcam a vida nesta comunidade.

Do nosso grupo de quatro, três elementos eram já repetentes em estadias em Taizé, mas para todos esta visita foi uma primeira vez. Uma primeira vez em que se integraram com jovens de todo o mundo, em que participaram “sozinhos” nos grupos de reflexão, em que tiveram de puxar pelos seus dotes linguísticos para comunicar com os colegas de camaratas ou os parceiros nas filas para obter o pão nosso de cada dia.

As manhãs começam às 07h30 com a Eucaristia celebrada de acordo com o rito católico por um grupo internacional de sacerdotes, destacando o francês, alemão, português, chinês, polaco ou ucraniano (para além de outros idiomas que dominamos menos bem). Imediatamente a seguir, acontece a primeira oração ecuménica do dia, antecedida pelo rebate dos sinos. As poucas dezenas que assistem à Eucaristia transformam-se em milhares que enchem o espaço modular da Igreja principal de Taizé. Ao som das melodias típicas de Taizé, estas orações marcam o início e o fim dos dias da comunidade de irmãos em que qualquer pessoa pode participar.

Depois de um pequeno-almoço sempre parco, o dia continua com uma sessão de introdução bíblica, grupos de reflexão, workshops temáticos e o desempenho de tarefas que variam entre a limpeza dos WCs, lavagem de roupa, distribuição de refeições, recolha de resíduos, ou outro trabalho útil para a comunidade. Esta rotina diária que, para muitos, termina só de madrugada, horas depois da última oração ter oficialmente terminado, transforma as noites em períodos curtos de difícil descanso.

Sim, as refeições não são a componente mais popular da experiência em Taizé, mas saciam os esfomeados, até porque nem só de pão vive o homem. Já as noites revelaram-se, por vezes, como o principal desafio: o alojamento coletivo em camaratas (ou tendas) para 6 peregrinos coloca-nos perante condições quase militares, mas sem os benefícios da disciplina militar.

Para os mais jovens do nosso grupo expedicionário a repetição da experiência foi marcada pela surpresa da multiculturalidade dos quase três mil presentes, com as suas confissões cristãs diferentes, as dúvidas de fé e de vida expostas abertamente como é incomum assistirmos na nossa terra, as muitas línguas faladas – tanto pelos irmãos da comunidade, como pelos peregrinos – que representam quase um abraço global ao mundo, da Ucrânia à Indonésia, passando pela América Latina e a China. Tal como por ocasião da JMJ Lisboa 2023, esta torre da Babilónia humanizada ativa-nos a mente, a curiosidade, e a rede de contactos e amizades.

O que trazemos de Taizé? Cada um de nós terá uma resposta diferente.

Destaco a aprendizagem do trabalho comunitário, em prol da comunidade. Se é possível colocar uma comunidade de milhares de pessoas a funcionar, em boa parte, graças à participação e ao trabalho colaborativo de todos, porque não o deveria ser nas nossas paróquias?

Destaco a vontade e a capacidade de reflexão crítica dos jovens que, por vezes tímidos, mas sem medo, procuram respostas às grandes questões da vida e da fé. Saibamos também nós, nas nossas comunidades cristãs e famílias, criar o espaço e conceder a liberdade para este questionamento necessário à consolidação da fé.

Destaco finalmente a “provocação“ lançada por um dos irmãos que nos questionava sobre o que nos impede de viver, na prática, o amor ao próximo no nosso dia-a-dia com gestos e não apenas com palavras. E a este propósito, recordo também uma resposta dada à pergunta sobre “como aumentar a minha fé”: precisamos de um Ginásio da Fé – onde, tal como no ginásio do corpo, a prática repetida do exercício do(s) mandamento(s), potencia a sua robustez… bem, e isto implica saber responder a outra questão: ‘onde está o teu irmão?’, pois como poderei praticar o amor ao próximo se não reconheço o meu irmão?!

Portanto: nada de novo em Taizé. Apenas o certo regresso à mensagem original de Cristo. 😉

Quanto ao resto da nossa jornada, uma frase para cada local:

Cluny: a Abadia imagina-se grandiosa se não tivessem vendido as pedras.

Avignon: um palácio gótico gigante e meia ponte, mas uma ventania desgraçada que nos levou a questionar a opinião do Senhor sobre aquele lugar.

Nimes: uma arena do tempo de Cristo, que já bebeu sangue dos gladiadores e que, ainda hoje, insiste em beber o sangue dos touros.

Montepellier: do aqueduto às duas monumentais torres da catedral de São Pedro, passando pelo Arco do Triunfo, tudo nos confirma estarmos em França.

Carcassonne: Óbidos … mas em grande e com uma arquitetura medieval típica lá do sítio.

Vitória: um regresso que confirma as relações criadas aquando da JMJ… a tal ponto que uma das espanholas até veio connosco.

Salamanca: uma magnificência monumentalmente excessiva e esmagadora.

Ciudad Rodrigo: adeus Espanha.

E muito mais há para contar. Cada um com a sua experiência individual: uma viagem, mas mil histórias.